5/16/2005

MUDANDO DE NOVO.

Meus caros. Depois de mais de um ano, e mais de seis mil visitas, o
Migalhas está mudando de casa. O nosso novo e definitivo endereço é http://migalhas.net .

O
Migalhas passará a a ter categorias novas e - este Migalheiro espera! - artigos diários.

Nós, que aqui estamos, por vós esperamos.

3/17/2005

HISTORIETA II. Eles se amavam. Por cartas. Lá, entre a tinta e o papel, é que se encontravam. Se encontravam em potência, e desejavam em ato.
Ana era letra redonda. Suspirava poesias numa caligrafia desenhada. Passeava os olhos entre a escrivaninha e a janela, como que a esperar. Não sabia bem o quê, se o carteiro ou o amado. Mas passeava os olhos, como que a esperar.
Tomé era letra inclinada. Inclinada e comprida. Parecia querer chegar antes. Enquanto escrevia, era só mão e pena. Acentos e cedilhas eram alvo de volúpia, como um beijo inesperado. Não sabia bem quem lhe despertava a paixão, se o perfume da carta ou o odor da tinta. Mas devotava volúpia, como um beijo inesperado.
Assim foram dias, meses. Ano e meio. E as cartas contavam o tempo. Com rigor e método. Uns dias, desejo; outros, canção. Uns dias, Ana era a um só tempo tanto rubor e quentura que sua mãe corria para a vila a chamar o médico. Outros dias, Tomé era tanto riso frouxo que seu pai o julgava amalucado. E as cartas contavam o tempo. Estações. Cartas quentes, frias, secas, encharcadas.
Num dia, feriado nos correios, decidiram se encontrar. Seriam Tomé e Ana, Ana e Tomé. Seriam mais que abecedários amantes. E, para mútua surpresa, as próximas cartas denunciavam o desejo que ambos tiveram no mesmo dia. Feriado nos correios.
Durante dois meses exatos, nem mais e nem menos, planejaram à exaustão. Tomé era texto em prosa, quase lógico. Cabia-lhe os detalhes, o local, o dia, a hora, e até mesmo as palavras. Ana era verso puro, alexandrino. Vaticinava os suspiros, as mãos dadas, olhos apaixonados, e o beijo. Sim, o beijo.
No domingo de Pentecostes, manhã cedinho, Ana saiu de casa e Tomé chegou à estação. Foram em direção da Igreja. Seus corações, faces e sangue, vermelhos como os paramentos do ambão e do altar. Subiram à fila para a comunhão. Ana à frente, Tomé atrás. Comeram o corpo de Cristo e pensaram. Pensaram que aquilo era a celebração da saudade. Pensaram que a saudade só nasce da ausência. Comeram o corpo de Cristo e sentaram.
Depois do Aleluia, saíram pela mesma porta. Ana viu, mas fez que não viu. Tomé fez que não viu, mas viu. O floricultor ensaiou uma saudação e Ana parou, aspirando até encher os pulmões de rosa. O jornaleiro gritou e Tomé parou, lendo as manchetes mais rápido do que poderia. Alguns minutos passados e alguns trocados a menos, Ana e Tomé, Tomé e Ana, voltaram para suas casas.
Já na terça-feira, houve trabalho para o correio. Desta vez, Ana é quem foi volúpia, letra nua e ardente. Desta vez, foi Tomé a poesia, letra bela e lírica. E, assim, viveram suas vidas, em íntima comunhão. Fizeram de suas escrivaninhas verdadeiros altares eucarísticos. Celebraram a ausência e a saudade. E se amaram perdidamente entre os lençóis de suas cartas. Pois era assim que se amavam.

3/03/2005

SOBRE COMO UM DIA INTEIRO DE CHUVA LHE TIRA O ÂNIMO DE QUALQUER COISA. É isto.

3/01/2005

BARÃO DA RALÉ. É curioso como os fundamentalistas podem estar em qualquer lugar e ser de qualquer tipo. Realmente, mais que uma classificação religiosa, o fundamentalismo se mostra a cada dia como uma verdadeira tipologia da condição humana. Agora, o problema é na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
É sabido que os anglicanos do mundo todo estão em discussão desde que a Igreja Episcopal dos EUA consagrou Gene Robinson como bispo da Diocese de New Hampshire. D. Gene Robinson é homossexual assumido, vivendo um relacionamento estável com seu parceiro há anos. Em virtude disto, a comunhão anglicana internacional tem discutido a possibilidade de compatibilidade da orientação homossexual com a vocação ministerial. Diga-se de passagem, a última conferência dos bispos primazes anglicanos recomendou a suspensão por dois anos da Igreja estadunidense e da Igreja canadense por causa da questão.
No Brasil, a liderança da IEAB comunga da idéia de inclusividade total, abrindo espaço para que os homossexuais vivam sua orientação sexual de forma completa. A Diocese do Recife, no entanto, na voz de seu bispo, Dom Robinson Cavalcanti, não adota o mesmo discurso. Para D. Robinson, o cristianismo baseia sua fé e prática primariamente nas Escrituras Sagradas, e estas apresentam a heterossexualidade como paradigma de ética sexual (o que não justifica, é claro, o preconceito e discriminação contra os homossexuais).
Até aí, tudo bem. Pluralidade de idéias deve sempre encontrar seu espaço na Igreja de Cristo. Não é isto, no entanto, o que pensa Dom Orlando Santos de Oliveira. Tomando por justificativa o fato de que D. Robinson manifesta-se contrariamente à atual liderança da IEAB, D. Orlando promulgou um decreto episcopal afastando o bispo da diocese recifense, acusando-o de insubmissão.
É assim: quando o outro concorda conosco e nós discordamos de um terceiro, nossa opinião é simplesmente um novo ponto de vista; agora, quando o outro discorda de nós, e nós somos superiores a ele, a sua opinião é insubmissão... Creio que é o primeiro caso em que uma Igreja liberal afasta um bispo conservador. Geralmente, é o contrário. Afinal de contas, os liberais costumam ser tolerantes...
D. Orlando está agindo como malandro. Acusa de insubmissão a voz destoante para se livrar de uma opinião distinta da sua. Ele só se esquece que, fazendo isso, se iguala a todos a quem quer combater, aos que não respeitam o pensamento alheio, aos que não cultivam o necessário ambiente de liberdade de opinião. Iguala-se à ralé. É certo. Como diria Chico Buarque, o malandro é o barão da ralé.

2/21/2005

PÚBLICO E PRIVADO. Na última semana, assisti a um documentário interessante. Tratava do comércio de roupas de segunda mão na Zâmbia. As roupas que vêm da América do Norte e da Europa como doação acabam sendo vendidas no país. Se, de um lado, movimentam a economia local, de outro, levaram a indústria têxtil à falência.
O que me chamou a atenção foi a declaração de um empresário local sobre o processo de colonialismo no leste africano. Segundo ele, a Zâmbia não foi simplesmente tutelada por políticos britânicos, mas, sim, por empresas britânicas. O que houve ali, foi uma clara confusão entre o público e o privado.
Este fenômeno tem acontecido na política internacional há muito tempo, em especial no século XX. Toda a intervenção estadunidense no Iraque, por exemplo, revela não apenas preocupação com questões de Estado, mas, também, claros interesses econômicos. Não é à toa que, ao mesmo tempo em que suas tropas chegavam ao solo iraquiano, representantes de suas empresas faziam o mesmo.
Entretanto, apesar desta confusão de esferas ter sido pontual entre as grandes nações no último século, aqui no Brasil ela é uma endemia. Desde a União até os municípios, os políticos brasileiros misturam seus interesses particulares com os interesses do cargo de uma forma tão notória que surgem dúvidas na hora de escolher o adjetivo: não se sabe se são ingênuos ou caras-de-pau mesmo.
Esta relação íntima entre o público e o privado já é quase que uma instituição brasileira. Suas raízes, talvez, estejam ligadas ao próprio processo de colonização do país. Com o regime de capitanias hereditárias, adotado por d. João III a partir de 1534, o país foi fatiado e entregue a governadores-exploradores. Os donatários eram, ao mesmo tempo, representantes do poder público da coroa portuguesa, cabendo-lhes organizar a defesa, as finanças e a justiça, e grandes exploradores privados, que receberam, pelas graças do rei, um vasto latifúndio com o qual podiam lucrar grandes somas e que, tal qual uma propriedade particular, seria transmitido à sua descendência.
De lá para cá, mudaram as formas, mas o princípio continua o mesmo. É desolador pensar que não se muda de uma hora para outra uma cultura política de cinco séculos. No entanto, é uma missão da qual não podemos escapar se queremos um país sério. Se é que o queremos.

2/18/2005

F. DOSTOIÉVSKI II. “Eu desdenho a harmonia, por amor à humanidade. Prefiro ficar com os meus sofrimentos não resgatados e a minha indignação, ainda que eu não tenha razão. Deram a esta harmonia um preço muito elevado, é muito cara a entrada. Por isto, apresso-me a devolver o bilhete. Como homem honesto, tenho a obrigação de devolvê-lo o quanto antes. É justamente o que faço. Não me recuso a admitir Deus, mas apenas lhe devolvo respeitosamente o bilhete.” (Ivan Fiodorovitch Karamazov, em Os Irmãos Karamazov)

F. DOSTOIÉVSKI. “Lá no mosteiro, os monges provavelmente supõem que o inferno tem um teto. Quanto a mim, estou disposto a acreditar no inferno, mas não posso admitir o teto. Assim, o inferno parece mais delicado, mais moderno, como entre os protestantes.” (Fiódor Pávlovitch Karamazov, em Os Irmãos Karamazov)

2/03/2005

DO FRONT. Lembro-me do riso no canto da boca. O riso dos vencedores. Era assim todo dia de manhã, ao chegar na escola, principalmente às segundas-feiras. Quando sacava de minha mochila as folhas rosadas do Jornal dos Sports, todos já sabiam o que lhes esperava. Não restava pedra sobre pedra sob os corações aflitos dos que não torciam para o time de Leandro, Júnior, Adílio, Andrade e - sobretudo - o mestre Zico. Isto para não falar dos mais jovens - evoé, jovens à vista! - como Aldair, Bebeto e o importado Renato Gaúcho. Por que raios o Altíssimo me permitiu conhecer e amar o Flamengo nos anos 80, quando ele reinava soberano? Por que me dotou desta inevitável arrogância dos que têm o mundo a seus pés? E por quais razões me faz chafurdar (sem o deleite suíno, o que é pior!) há dez anos neste mar de lama? Nem espero mais o Fla-Flu. Ontem já me bastou. Olaria, Cabofriense, Americano. Desolador cenário de guerra. O horror, o horror!

1/27/2005

SEPULTAR O FILHO. Na semana passada, oficiei um sepultamento. Era uma criança, apenas seis anos. Sabe-se lá qual a carga emocional de um lugar comum, mas é certo que pais não nasceram para enterrar seus filhos. Por que tanto sofrimento? Carpideiras descendo a ladeira do cemitério. Corpo descendo ao túmulo. Dor descendo ao mais profundo recôndito humano. E eu lá, trazendo palavras de esperança. Esperando contra a esperança. Há algo de muito estranho no universo quando uma mãe tem de sepultar a filha.

VOLTANDO. Retornei de férias. Ao trabalho!